meus versos inúteis
que não me servem nem como porta de boca
e que quando os escrevo é gozo e agonia
esses versos que me sobem a garganta
e me descem aos dedos
rasgados de toda melancolia dos dias que findaram
mas que em minha vívida memória
se saboreiam do meu desejo de alforria
para todo o meu desgosto
acendo um cigarro como se nele morasse o mundo
ou a mim coubesse pôr a alma na brasa
mas sem sentido ele acaba como tudo
e finda numa tragada e numa libertadora baforada
então retomo a mim como se fosse tudo
e presto atenção no que percebo
caio arranhando o vidro num barulho irritante
como se gritasse a mim meus dedos e as unhas que tentam fincar-se a qualquer coisa
toda noite, todo dia é desespero
corro os olhos sobre o muro, vejo a todos e todos me ignoram
mas porque me escondo na sacada e me abaixo atrás do muro
pois só quero ver passar o mundo
mas essa tentativa burra é a insuficiência de ver tudo
e a rua não é a porta desse mundo que tanto falo
e, portanto, não só falo
como vejo somente com meus olhos que a terra já comeu
e que foram devorados também por mim mesmo quando quis enxergar
e essa é mais uma coisa que me acometo por a vida ter-me um pouco dos olhos em tudo
viajo experimentando como também experimento agora sentado
na escada, de costas pra porta que dentro tem a cama que me abriga
e nessas viagens penso sempre nessa cama e nela vejo meu descanso
mas essa noite não poder dormir me ilumina o mundo
apesar do breu da noite e olhar daqui a vida no escuro
quando me encontro nessas viagens sinto como se estivesse perdendo(e perdendo nada)
pois o que tira minha calma é a violência dos trens e a distancia das pessoas
ninguém se conhece e portanto é dado como incerto estar próximo do outro
mas incerto é somente meu destino nesse rumo
às vezes quando encosto no parapeito de uma janela penso que sei de tudo
mas caio na desgraça e o agora não é nada, e o parapeito é só o meu encosto de descanso
então acho que devo ir ao encontro de gentes, mas as vejo de longe
porque se me aproximo a revelação é sempre o espanto
não sei como saber do outro se sua alma é outra que não é a minha
e sua casa, seu corpo é repleto de todas as formas que o meu não tem
ao mesmo tempo que agora escrevo o que penso nesse processo de pensar e escrever
acho também que gosto do gosto desse desconhecido
meu sonho é para mim
e esse sonho de futuro é miserável por não ser nada ainda
quando chego no depois, já não sei mais do agora e acabo por me esquecer desses planos futuros
eles não são nada mesmo, nem o que pretendem, nem o que por ideia posso ter
e esquecendo essa ideia, existe um vácuo que assola o esquecido
eu sou esquecido, mas que ao mesmo tempo não sou nada
nem eu, nem o outro
nem os sonhos futuros
não existe eu
agora persiste a cabeça maquinando e os dedos em função de dizer tantas coisas...
mas quando falo sei que de pouco essa linguagem pode falar
e essa minha argumentação hipotética
é a mesma suposição barata de quem não sabe de nada
e não saber de nada, às vezes penso, é privilégio
por ainda manter viva uma esperança no futuro
ou mesmo no agora, uma esperança cinza do desconhecido por que de esperar tanto
mas acabo sempre sendo alguma coisa
e essa coisa no final acaba por me incomodar
por me sentir desse que sou um escravo
que crava na própria pele sua unha
como se pudesse eu querer virar-me do avesso
atravessar minha pele e me ver de dentro
uma tolice sem tamanho pela ideia ser um absurdo, e as unhas que fincam machucar a pele
e acabo por me machucar de muitas maneiras quando me sinto encurralado
mas sei, também, que por acaso minha pele é minha casa
e emudece esse querer de quase-morte, essa vontade de abandonar a pele
sei que tudo o que tenho ainda estou pra aceitação
e minha voz que julgo como desafinada é a unica que fala
canto a tristeza, canto uma alegria que não conheço, canto por somente poder cantar
esse ato de desanuviar minha perturbação, esse problema que parece ser eterno na cabeça, mas que vejo no corpo e nos olhos de todos
de mim ninguém sabe nada, e se quisesse saber seria um querer em vão
pois só eu te vejo daqui de dentro e só eu estou ocupando meu espaço
percebo que sou ruim nas coisas que faço e me decepciono por nem cantar saber
falho nas coisas e, nelas, ainda que não queira, eu estou
e estar é meu unico estado no momento
também não quero nada
absolutamente nada, o que deixa a muitos com desconfiança
mas não posso querer nada, pois eu mesmo sou a finalidade das coisas que posso querer
essa é minha derrota
enquanto estou no quintal de casa, observo, novamente por cima do muro, um pedreiro que está consertando a casa ao lado querer um tanto, querer muito
e eu ali não quero nada, nem mesmo observar o que quer o pedreiro
mas observo, como num exercício de auto-flagelo, a grandiosidade dos quereres daquele homem
não sei ao certo aonde o leva seu querer, nem mesmo ao certo quem é o homem trabalhando
e não invejo, nem em mente nem em alma, nada daquelas vontades
mas as acho grandes, por eu mesmo não querer nada
sento-me pra fumar um cigarro e penso: o que será de mim se não quero
e eu que não sou nada e não tenho grandes aspirações
meu querer agora é não querer nada. é, na verdade, querer tudo ao mesmo tempo
se penso no agora, agora só quero fumar um cigarro
e deixar pra lá o que penso ainda sobre meus sonhos futuros
pois eles não são nada
não são
ficam aqui nessa escada
enquanto vou-me embora, deixando tudo para trás
como houvera deixado antes e por ser burro voltei atrás
mas no agora a vontade é tudo o que persiste em mim
nesse meu movimento em me levantar, deixar o chão
o pedreiro e esses sonhos impossíveis
só porque caio a todo instante
nesse agora, que parece que dura um especial para sempre
ah, então me lembro e volto ao passado
me lembro de criança e não ser tão cheio de tudo
quando nem tinha ideia de que não sabia de nada e por inocência nem mesmo me importava
só chorava de fome
e ria do que achava verdadeira graça
mas hoje, esse torpor de alucinações que me emaranhei
rio da desgraça, rio do que não acho graça
rio por pena
talvez de mim mesmo
mas uma pena de burrice, a pena que sinto quando me vejo só
mesmo sabendo que é essa condição imutável
apesar de saber que nada disso contém importância
me incomodam os acasos em que sou obrigado a dizer meu nome
como se meu nome fosse eu
aí recordo-me novamente de ser criança
e nem em nome pensar como pessoa
não me olhava no espelho
não me via em julgamento
não reparava minhas formas
que hoje preciso desse exercício de aceitação pra não me chatear comigo mesmo
mas sei,
como sei sabendo porque sinto
que nada adianta existir todas as coisas
se eu não estiver aqui para senti-las
se eu não estiver aqui, nada disso existiria
ninguém existiria
e parece tudo fruto do que sinto
e é, afinal
essas experiências sem importância alguma
são as mesmas que me fazem compreender
numa incompreensão não entendível
daquelas que só posso dizer que se sente, e se sente muito,
de que tudo
que a vida sem futuro e sem passado
que a vida do presente eterno
só se é vida porque vivo
e só é nada
porque eu mesmo não sei nada
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
tristeza
minhas rugas são internas
e meu eterno rugido de alma
não cessa e nem grita a minha dor
minha tristeza que não tem nome
(nem mesmo de tristeza)
é um amargor, que só,
experimento sentir
minha alma se alaga
e no drama exercido pelos meus dizeres
minha alma se alaga de lágrimas
e é triste de um cinza bem escuro
que como no cigarro que acaba na bituca
à minha beira
minha alegria se esvai
e meu eterno rugido de alma
não cessa e nem grita a minha dor
minha tristeza que não tem nome
(nem mesmo de tristeza)
é um amargor, que só,
experimento sentir
minha alma se alaga
e no drama exercido pelos meus dizeres
minha alma se alaga de lágrimas
e é triste de um cinza bem escuro
que como no cigarro que acaba na bituca
à minha beira
minha alegria se esvai
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
corpo frágil
num dia meu corpo doía como quebrado
no outro me doía a cabeça
e de repente eu quis sair do meu corpo
e eu estava na minha pele mais do que nunca
suportá-la na dor e na febre
no frio e no calor
quando minha sensibilidade parecia reluzente
sabia que em mim estava presente
o desejo de romper a pele e me expandir no ar e ser como o ar
abandonar o corpo doente
e só quando doente percebo que dentro do meu corpo
estou fechado e dos arrepios dos pelos não passo
não vou além do toque e do sentido
nos outros dias acordei derramado
esticado na cama, impossibilitado
calado
e então cada vez mais dentro do corpo
e ao mesmo tempo tão afastado do corpo
que ele não se movia
e nem se expressava
derramado eu estava dentro de mim
num lugar indizível, o lado escuro do interior de todos nós
e quando o corpo expõe sua fragilidade
existe um eu que o resiste
e um eu que resiste a mim mesmo
no outro me doía a cabeça
e de repente eu quis sair do meu corpo
e eu estava na minha pele mais do que nunca
suportá-la na dor e na febre
no frio e no calor
quando minha sensibilidade parecia reluzente
sabia que em mim estava presente
o desejo de romper a pele e me expandir no ar e ser como o ar
abandonar o corpo doente
e só quando doente percebo que dentro do meu corpo
estou fechado e dos arrepios dos pelos não passo
não vou além do toque e do sentido
nos outros dias acordei derramado
esticado na cama, impossibilitado
calado
e então cada vez mais dentro do corpo
e ao mesmo tempo tão afastado do corpo
que ele não se movia
e nem se expressava
derramado eu estava dentro de mim
num lugar indizível, o lado escuro do interior de todos nós
e quando o corpo expõe sua fragilidade
existe um eu que o resiste
e um eu que resiste a mim mesmo
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Sem palavras
eu ando por caminhos indizíveis
locais que só me permitem sentir
e por sentir ser tanto
não há forma possível
de expressão através da boca
para dizer o que se passa e o que atravessa
em nós, dentro de tudo
e tudo dentro de nós
a palavra pontua e encerra em si a coisa dita
o sentimento extrapola, expande-se, dura até o sentimento de morte
o que sinto quer até romper a pele
sentir é intenso
e estar dentro de si
que somente sente a si
que somente sabe-se
só o suporta, é só e alegre
e triste, febril
tudo o que tudo pode ser
sendo tudo dentro de si
sentindo tudo que vive dentro de si
extasiado por uma amora devorada do pé
como se a amora pulsasse vida
como eu
e de repente, ela realmente pulsa
não sei dizer o que senti
tenho poucas palavras e minha cabeça é de gente
que assim como a gente
fica embaraçado
quando tenta dizer dos sentidos, das vibrações
quando tenta dizer que dentro de si
existe tanto que não cabe aqui
locais que só me permitem sentir
e por sentir ser tanto
não há forma possível
de expressão através da boca
para dizer o que se passa e o que atravessa
em nós, dentro de tudo
e tudo dentro de nós
a palavra pontua e encerra em si a coisa dita
o sentimento extrapola, expande-se, dura até o sentimento de morte
o que sinto quer até romper a pele
sentir é intenso
e estar dentro de si
que somente sente a si
que somente sabe-se
só o suporta, é só e alegre
e triste, febril
tudo o que tudo pode ser
sendo tudo dentro de si
sentindo tudo que vive dentro de si
extasiado por uma amora devorada do pé
como se a amora pulsasse vida
como eu
e de repente, ela realmente pulsa
não sei dizer o que senti
tenho poucas palavras e minha cabeça é de gente
que assim como a gente
fica embaraçado
quando tenta dizer dos sentidos, das vibrações
quando tenta dizer que dentro de si
existe tanto que não cabe aqui
segunda-feira, 27 de maio de 2013
sobre a vida e seu mistério
Se tudo é tanto, então nada sou. Nem poderia pretender ser
nada. Se existe um uno dentro de mim, minha carne é casca de empoeiramentos sem
fim. Aonde por dentro existe uma natureza que não termina, que é minha alma,
minha calma, pedaço do que sou, enfim. Se saberei quem sou (?), também, creio
que não saberei. Existe um mistério dentre nós, qual move a vida de diferentes
formas. Minha experiência por aqui é a de me encobrir deste mistério, esse que,
na verdade, já sou encoberto pelas vivências da vida. De maneiras diversas,
surge de surpresa o que se chamaria de sinal, não do divino cristão, mas do
divino interior. Divino sim, sagrado, que está coberto pelas verdades absolutas,
as buscas por poderes menores que nós podemos nos sentir ser. Esse surgimento
repentino de qualquer coisa que pode ser pequena e foge do entendimento, dando
um ar do que se quer entender sobre a vida e o que é existir aqui e agora.
Nunca é algo espetacular, notável no atual cenário social, mas é fascinante
pelo pedaço de vida que carrega. Quem o percebe é sensível a si mesmo e a vida.
Nunca é um objeto de estudo, mas de vivência, uma experiência sempre memorável
e reflexiva. Se existe o micróbio do samba, existe o micróbio da vida, que
quando se remexe dentro de nós, causa incômodo, náusea e parece querer nos fazer despertar pra algo maior. O que me
incomoda me desperta interesse. A vida dói e se remexe feito o micróbio. Mas
sinto que nada sei que possa dizer especificamente sobre o que é, só sinto
mesmo. Foge do entendimento, pois não é nele que se encontra, por não
conseguirmos nos expressar, contar essa história, pois ela é única pra cada um
e, apesar de fugir do entendimento, é sentido e podemos pensar. Pensar em que?
Eis a questão... acredito serem esses fragmentos de vida que vivenciamos nessa
experiência. Como se voltasse aonde à vida nasceu, um lugar desconhecido.
Enquanto ela acontece, tudo acontece, até o tempo passa de maneira que nunca
senti passar antes. Cada fragmento é terno, mas duradouro. Ele quer que você
chegue ao mais profundo de si. Ele não pretende, ele está ali para isso. Se
encontrarmos os mistérios da vida no caminho que se segue pelo mundo e dentro
de nós, esse, que só mesmo eu penso que sei do que falo, não cabe no
entendimento fácil das coisas, pois, como penso, não se entende, mas se sente e
se deixa guiar para dentro. Devemos acreditar na vida que é só nossa e que,
apesar de desconhecermos, sabemos que é nossa, que é parte de uma experiência
individual e única. Chamariam de loucura, mas eu chamaria de náusea (como Jean Paul Sartre), de
despertar, de individualidade. A verdade aqui é que pouco me importa o nome que
poderia dar ao que vida se revela para mim. Pois não está nas vitrines e
catálogos, muito menos na boca das pessoas. Talvez esteja acima das nuvens
aonde me sinto estar vez ou outra, acompanhando o viver estático das pessoas e
a natureza das plantas e da vida que não se pode também simplesmente explicar
com um respaldo cientifico. Quando nasci, acidentalmente ou não, engoli esse
mistério que não vem à boca, mas talvez se encontre em alguns olhares. Ele se
espalhou por mim e está entranhado em minhas artérias, meus pulmões e coração.
Mas me parece que ele não envelhece, ao contrário de minha casca, pele,
expressão, ele se rejuvenesce a cada fragmento que encontro pelo caminho que
traço minha vida. Se torna novo e se torna muito, tanto que não se sabe quanto
é. Se o micróbio se mexe dentro de mim, se a vida se incomoda da vida que se
leva hoje e deseja se elevar a infinidade que ela pode ser, nada mais justo que
subir as nuvens e sentir um pouco do seu mistério, e é então que me parece que
desenferrujo e desmancho um pouco da máquina que instalaram em mim, meus
movimentos são os que desejam ser, não apenas um aceno, um adeus, um passo ou
um trabalho empenhado. Claro que conheço as limitações do corpo, mas desconheço
limitações para este mistério que deseja todos os dias acontecer em mim.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
sonâmbulo
Esse tempo de urgências...
As urgências esfarrapam os
acasos
E ensandecido é aquele que
tomou tempo
Numa espécie de limbo
Onde tempo é contado e
cronometrado
Não se passa, corre
Não venta, faz vendaval
O que dorme é interrompido
Vira sonâmbulo, perdido
Tic tac, ele conta
E não se ultrapassa as horas
de sono mal dormidas
Passante com sono
Sonambulando em encontros
Em meio a tantos desencontros
Mesmo inconsciente
O inconsciente faz lamentar
E na remela da manhã adiantada
O que passa pelo tempo não tem
tempo para nada
Quando desperta
Continua sonâmbulo
No deserto de insônia
Onde o sonâmbulo é mera
representação
Do tempo contado, do chão
pisado
Do trabalho empenhado
Sonâmbulo não tem tempo de
despertar
Quando dorme, morre
Quando acorda, vagueia
É como se nem tivesse sangue
na veia
Gelado o sangue, parece que o
sangue parou
Sem se dar conta do atraso
acometido
O sonâmbulo cambaleia
No pêndulo, onde, ora pende
entre as verdades, ora pende com sono
O sonâmbulo é uma alma
adormecida
No corpo de uma noite mal
dormida
segunda-feira, 29 de abril de 2013
as manhãs
Acabo de passar por mais uma manhã.
O sol nasce, as pessoas vão trabalhar, a luz adentra a janela.
Quisera eu que fosse outra manhã.
Existe nela movimento nas ruas e as luzes se desligando nos postes.
Passageiros esperando o ônibus e o neto sendo levado para a escola.
Uma mulher comprando cigarro e o menino comprando o doce.
E vai ficando mais quente conforme o sol sobe o céu para rasgá-lo em mais um dia.
A vida seria somente o enquadramento da janela caso não saísse daqui -penso.
E é. Acompanho do alto toda movimentação.
6 horas, bate o sinal da escola e os alunos entram.
Esvazia-se a rua frente a minha.
O vento toma conta tornando-se notável, batendo nas árvores e guiando os pombos.
Mais uma manhã.
Não percebo em minutos o negro do céu tornar-se laranja.
As cores não tem formas. E se misturam.
O céu não tem consistência e nunca pretende desabar.
As nuvens passam a me observar, a te observar. Elas passam e se desfazem.
Vão se transformando, juntando-se umas as outras. Sem rumo e nem direção.
Mais uma manhã.
Não percebo o dia chegar enquanto o calor adentra o quarto e a coberta.
Desperto no lamento em lágrimas do meu próprio corpo que não suporta tal calor.
Coisa alguma, dessa vez, tem consistência e realidade.
Fui tomado por uma enxaqueca que durou uma semana e ainda não findou.
De repente o dia é feio. É quente e desagradável.
O café não está pronto assim como eu.
Não sei como e quando me inicio.
As crianças indo ao colégio e as pessoas indo ao trabalho, que barulho infernal.
Minha audição é sensível como não havia percebido.
Tonto, urino já com a bexiga pedindo socorro. Mal consigo ficar de pé.
Mais uma manhã.
Vai-se a cabeça, fica a dor.
Minha cabeça foi cortada esta manhã.
Amolaram a faca durante alguns dias e finalmente hoje me decapitaram.
Mas fica a dor latente de um dia ter tido cabeça.
Procuro debaixo da cama, em cima da cabeceira. No escuro é fácil perder a própria cabeça -penso.
E acabo por deixar a manhã passar sem que eu possa perceber sua existência. E das outras pessoas.
Volto a dormir e existir nessa manhã não passa de um mero sonho.
A porta se fecha, dando princípio aos compromissos matinais. Que irão durar o resto do dia.
Estou pelo lado de dentro, faz frio e calor, ao mesmo tempo.
Meu pensamento, para meu desgosto, voa pra longe do aqui e agora.
Quando me dou conta, é manhã e então estou no aqui e agora.
Tenho uma revelação inusitada sobre nossa condição.
Toda manhã é uma epifania, todo pensamento matinal é uma divina constatação.
E selado o período pelo relógio ao meio dia, o dia se torna uma irrealização, por ser mero e efêmero vão.
Espero pela manhã seguinte, que parece eterna no raiar do sol.
O sol nasce, as pessoas vão trabalhar, a luz adentra a janela.
Quisera eu que fosse outra manhã.
Existe nela movimento nas ruas e as luzes se desligando nos postes.
Passageiros esperando o ônibus e o neto sendo levado para a escola.
Uma mulher comprando cigarro e o menino comprando o doce.
E vai ficando mais quente conforme o sol sobe o céu para rasgá-lo em mais um dia.
A vida seria somente o enquadramento da janela caso não saísse daqui -penso.
E é. Acompanho do alto toda movimentação.
6 horas, bate o sinal da escola e os alunos entram.
Esvazia-se a rua frente a minha.
O vento toma conta tornando-se notável, batendo nas árvores e guiando os pombos.
Mais uma manhã.
Não percebo em minutos o negro do céu tornar-se laranja.
As cores não tem formas. E se misturam.
O céu não tem consistência e nunca pretende desabar.
As nuvens passam a me observar, a te observar. Elas passam e se desfazem.
Vão se transformando, juntando-se umas as outras. Sem rumo e nem direção.
Mais uma manhã.
Não percebo o dia chegar enquanto o calor adentra o quarto e a coberta.
Desperto no lamento em lágrimas do meu próprio corpo que não suporta tal calor.
Coisa alguma, dessa vez, tem consistência e realidade.
Fui tomado por uma enxaqueca que durou uma semana e ainda não findou.
De repente o dia é feio. É quente e desagradável.
O café não está pronto assim como eu.
Não sei como e quando me inicio.
As crianças indo ao colégio e as pessoas indo ao trabalho, que barulho infernal.
Minha audição é sensível como não havia percebido.
Tonto, urino já com a bexiga pedindo socorro. Mal consigo ficar de pé.
Mais uma manhã.
Vai-se a cabeça, fica a dor.
Minha cabeça foi cortada esta manhã.
Amolaram a faca durante alguns dias e finalmente hoje me decapitaram.
Mas fica a dor latente de um dia ter tido cabeça.
Procuro debaixo da cama, em cima da cabeceira. No escuro é fácil perder a própria cabeça -penso.
E acabo por deixar a manhã passar sem que eu possa perceber sua existência. E das outras pessoas.
Volto a dormir e existir nessa manhã não passa de um mero sonho.
A porta se fecha, dando princípio aos compromissos matinais. Que irão durar o resto do dia.
Estou pelo lado de dentro, faz frio e calor, ao mesmo tempo.
Meu pensamento, para meu desgosto, voa pra longe do aqui e agora.
Quando me dou conta, é manhã e então estou no aqui e agora.
Tenho uma revelação inusitada sobre nossa condição.
Toda manhã é uma epifania, todo pensamento matinal é uma divina constatação.
E selado o período pelo relógio ao meio dia, o dia se torna uma irrealização, por ser mero e efêmero vão.
Espero pela manhã seguinte, que parece eterna no raiar do sol.
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