sexta-feira, 13 de setembro de 2013

tristeza

minhas rugas são internas
e meu eterno rugido de alma
não cessa e nem grita a minha dor
minha tristeza que não tem nome
(nem mesmo de tristeza)
é um amargor, que só,
experimento sentir
minha alma se alaga
e no drama exercido pelos meus dizeres
minha alma se alaga de lágrimas
e é triste de um cinza bem escuro
que como no cigarro que acaba na bituca
à minha beira
minha alegria se esvai

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

corpo frágil

num dia meu corpo doía como quebrado
no outro me doía a cabeça
e de repente eu quis sair do meu corpo
e eu estava na minha pele mais do que nunca
suportá-la na dor e na febre
no frio e no calor
quando minha sensibilidade parecia reluzente
sabia que em mim estava presente
o desejo de romper a pele e me expandir no ar e ser como o ar
abandonar o corpo doente
e só quando doente percebo que dentro do meu corpo
estou fechado e dos arrepios dos pelos não passo
não vou além do toque e do sentido
nos outros dias acordei derramado
esticado na cama, impossibilitado
calado
e então cada vez mais dentro do corpo
e ao mesmo tempo tão afastado do corpo
que ele não se movia
e nem se expressava
derramado eu estava dentro de mim
num lugar indizível, o lado escuro do interior de todos nós
e quando o corpo expõe sua fragilidade
existe um eu que o resiste
e um eu que resiste a mim mesmo

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Sem palavras

eu ando por caminhos indizíveis
locais que só me permitem sentir
e por sentir ser tanto
não há forma possível
de expressão através da boca
para dizer o que se passa e o que atravessa
em nós, dentro de tudo
e tudo dentro de nós

a palavra pontua e encerra em si a coisa dita
o sentimento extrapola, expande-se, dura até o sentimento de morte
o que sinto quer até romper a pele
sentir é intenso
e estar dentro de si
que somente sente a si
que somente sabe-se
só o suporta, é só e alegre
e triste, febril
tudo o que tudo pode ser
sendo tudo dentro de si
sentindo tudo que vive dentro de si
extasiado por uma amora devorada do pé
como se a amora pulsasse vida
como eu
e de repente, ela realmente pulsa

não sei dizer o que senti
tenho poucas palavras e minha cabeça é de gente
que assim como a gente
fica embaraçado
quando tenta dizer dos sentidos, das vibrações
quando tenta dizer que dentro de si
existe tanto que não cabe aqui

segunda-feira, 27 de maio de 2013

sobre a vida e seu mistério

Se tudo é tanto, então nada sou. Nem poderia pretender ser nada. Se existe um uno dentro de mim, minha carne é casca de empoeiramentos sem fim. Aonde por dentro existe uma natureza que não termina, que é minha alma, minha calma, pedaço do que sou, enfim. Se saberei quem sou (?), também, creio que não saberei. Existe um mistério dentre nós, qual move a vida de diferentes formas. Minha experiência por aqui é a de me encobrir deste mistério, esse que, na verdade, já sou encoberto pelas vivências da vida. De maneiras diversas, surge de surpresa o que se chamaria de sinal, não do divino cristão, mas do divino interior. Divino sim, sagrado, que está coberto pelas verdades absolutas, as buscas por poderes menores que nós podemos nos sentir ser. Esse surgimento repentino de qualquer coisa que pode ser pequena e foge do entendimento, dando um ar do que se quer entender sobre a vida e o que é existir aqui e agora. Nunca é algo espetacular, notável no atual cenário social, mas é fascinante pelo pedaço de vida que carrega. Quem o percebe é sensível a si mesmo e a vida. Nunca é um objeto de estudo, mas de vivência, uma experiência sempre memorável e reflexiva. Se existe o micróbio do samba, existe o micróbio da vida, que quando se remexe dentro de nós, causa incômodo, náusea e parece querer nos fazer despertar pra algo maior. O que me incomoda me desperta interesse. A vida dói e se remexe feito o micróbio. Mas sinto que nada sei que possa dizer especificamente sobre o que é, só sinto mesmo. Foge do entendimento, pois não é nele que se encontra, por não conseguirmos nos expressar, contar essa história, pois ela é única pra cada um e, apesar de fugir do entendimento, é sentido e podemos pensar. Pensar em que? Eis a questão... acredito serem esses fragmentos de vida que vivenciamos nessa experiência. Como se voltasse aonde à vida nasceu, um lugar desconhecido. Enquanto ela acontece, tudo acontece, até o tempo passa de maneira que nunca senti passar antes. Cada fragmento é terno, mas duradouro. Ele quer que você chegue ao mais profundo de si. Ele não pretende, ele está ali para isso. Se encontrarmos os mistérios da vida no caminho que se segue pelo mundo e dentro de nós, esse, que só mesmo eu penso que sei do que falo, não cabe no entendimento fácil das coisas, pois, como penso, não se entende, mas se sente e se deixa guiar para dentro. Devemos acreditar na vida que é só nossa e que, apesar de desconhecermos, sabemos que é nossa, que é parte de uma experiência individual e única. Chamariam de loucura, mas eu chamaria de náusea (como Jean Paul Sartre), de despertar, de individualidade. A verdade aqui é que pouco me importa o nome que poderia dar ao que vida se revela para mim. Pois não está nas vitrines e catálogos, muito menos na boca das pessoas. Talvez esteja acima das nuvens aonde me sinto estar vez ou outra, acompanhando o viver estático das pessoas e a natureza das plantas e da vida que não se pode também simplesmente explicar com um respaldo cientifico. Quando nasci, acidentalmente ou não, engoli esse mistério que não vem à boca, mas talvez se encontre em alguns olhares. Ele se espalhou por mim e está entranhado em minhas artérias, meus pulmões e coração. Mas me parece que ele não envelhece, ao contrário de minha casca, pele, expressão, ele se rejuvenesce a cada fragmento que encontro pelo caminho que traço minha vida. Se torna novo e se torna muito, tanto que não se sabe quanto é. Se o micróbio se mexe dentro de mim, se a vida se incomoda da vida que se leva hoje e deseja se elevar a infinidade que ela pode ser, nada mais justo que subir as nuvens e sentir um pouco do seu mistério, e é então que me parece que desenferrujo e desmancho um pouco da máquina que instalaram em mim, meus movimentos são os que desejam ser, não apenas um aceno, um adeus, um passo ou um trabalho empenhado. Claro que conheço as limitações do corpo, mas desconheço limitações para este mistério que deseja todos os dias acontecer em mim.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

sonâmbulo

Esse tempo de urgências...
As urgências esfarrapam os acasos
E ensandecido é aquele que tomou tempo
Numa espécie de limbo
Onde tempo é contado e cronometrado
Não se passa, corre
Não venta, faz vendaval
O que dorme é interrompido
Vira sonâmbulo, perdido
Tic tac, ele conta
E não se ultrapassa as horas de sono mal dormidas
Passante com sono
Sonambulando em encontros
Em meio a tantos desencontros
Mesmo inconsciente
O inconsciente faz lamentar
E na remela da manhã adiantada
O que passa pelo tempo não tem tempo para nada
Quando desperta
Continua sonâmbulo
No deserto de insônia
Onde o sonâmbulo é mera representação
Do tempo contado, do chão pisado
Do trabalho empenhado
Sonâmbulo não tem tempo de despertar
Quando dorme, morre
Quando acorda, vagueia
É como se nem tivesse sangue na veia
Gelado o sangue, parece que o sangue parou
Sem se dar conta do atraso acometido
O sonâmbulo cambaleia
No pêndulo, onde, ora pende entre as verdades, ora pende com sono
O sonâmbulo é uma alma adormecida
No corpo de uma noite mal dormida

segunda-feira, 29 de abril de 2013

as manhãs

Acabo de passar por mais uma manhã.
O sol nasce, as pessoas vão trabalhar, a luz adentra a janela.
Quisera eu que fosse outra manhã.
Existe nela movimento nas ruas e as luzes se desligando nos postes.
Passageiros esperando o ônibus e o neto sendo levado para a escola.
Uma mulher comprando cigarro e o menino comprando o doce.
E vai ficando mais quente conforme o sol sobe o céu para rasgá-lo em mais um dia.

A vida seria somente o enquadramento da janela caso não saísse daqui -penso.
E é. Acompanho do alto toda movimentação.
6 horas, bate o sinal da escola e os alunos entram.
Esvazia-se a rua frente a minha.
O vento toma conta tornando-se notável, batendo nas árvores e guiando os pombos.
Mais uma manhã.

Não percebo em minutos o negro do céu tornar-se laranja.
As cores não tem formas. E se misturam.
O céu não tem consistência e nunca pretende desabar.
As nuvens passam a me observar, a te observar. Elas passam e se desfazem.
Vão se transformando, juntando-se umas as outras. Sem rumo e nem direção.
Mais uma manhã.

Não percebo o dia chegar enquanto o calor adentra o quarto e a coberta.
Desperto no lamento em lágrimas do meu próprio corpo que não suporta tal calor.
Coisa alguma, dessa vez, tem consistência e realidade.
Fui tomado por uma enxaqueca que durou uma semana e ainda não findou.
De repente o dia é feio. É quente e desagradável.
O café não está pronto assim como eu.
Não sei como e quando me inicio.
As crianças indo ao colégio e as pessoas indo ao trabalho, que barulho infernal.
Minha audição é sensível como não havia percebido.
Tonto, urino já com a bexiga pedindo socorro. Mal consigo ficar de pé.
Mais uma manhã.

Vai-se a cabeça, fica a dor.
Minha cabeça foi cortada esta manhã.
Amolaram a faca durante alguns dias e finalmente hoje me decapitaram.
Mas fica a dor latente de um dia ter tido cabeça.
Procuro debaixo da cama, em cima da cabeceira. No escuro é fácil perder a própria cabeça -penso.
E acabo por deixar a manhã passar sem que eu possa perceber sua existência. E das outras pessoas.
Volto a dormir e existir nessa manhã não passa de um mero sonho.

A porta se fecha, dando princípio aos compromissos matinais. Que irão durar o resto do dia.
Estou pelo lado de dentro, faz frio e calor, ao mesmo tempo.
Meu pensamento, para meu desgosto, voa pra longe do aqui e agora.
Quando me dou conta, é manhã e então estou no aqui e agora.
Tenho uma revelação inusitada sobre nossa condição.
Toda manhã é uma epifania, todo pensamento matinal é uma divina constatação.
E selado o período pelo relógio ao meio dia, o dia se torna uma irrealização, por ser mero e efêmero vão.
Espero pela manhã seguinte, que parece eterna no raiar do sol.

terça-feira, 9 de abril de 2013

inalcançável

    "Como é por dentro outra pessoa?
    Quem é que o saberá sonhar?
    A alma de outrem é outro universo
    Com que não há comunicação possível,
    Com que não há verdadeiro entendimento.
    Nada sabemos da alma
    Senão da nossa;
    As dos outros são olhares,
    São gestos, são palavras,
    Com a suposição de qualquer semelhança
    No fundo."
    Fernando Pessoa, 1934
Perde-se muito tempo da vida tentando alcançar o outro. O outro é mistério que não dá pra desvendar. É interessante constatar isso, pois quando afirmo que não se dá pra alcançar o outro, sei que só está no meu alcance o oposto do outro, eu mesmo. E aí é que se embaraça e encontro uma teia de problemas: encontrar a si mesmo é tarefa que me parece, às vezes, de monge ou eremita. Mas posso estar errado, o outro nunca esteve tão próximo e, também, nunca esteve tão distante. Próximo de tato, longe do nosso conhecimento. Nunca se conhece ao outro como a si mesmo. Esse “fora do alcance” que me vi, perdido no meio das minhas divagações, na ponta do fio da linha extensa que é o outro, que criei preocupações no não alcance. Me faltou tato e experiência. Consciência também. Não me culpo por não ter percebido a distancia que jamais poderia percorrer para alcançar o outro.

Quando assim me encontro, nessa ponta do fio, viajo e me mudo de cidade, ainda me deparo com essa mesma distancia. É confuso, pois o que tinha em mente  -e que, agora, mudou completamente- é que o outro era a tarefa da minha vida, a meta que iria alcançar, as cabeças e as mentes tão confusas quanto a minha e a de qualquer outra pessoa, que iria entender. Não iria, nem nunca vou. É nesse ponto em que, quando vamos nesse encontro impossível que nos afastamos de nós mesmos, creio eu. Quando ponho eu e o outro em jogada, desfaço esse oposto, porque, antes de qualquer coisa, não alcançarei o entendimento da mente do outro e, ainda tento encontrar solução para a minha. Então não existe oposição, senão uma mera distancia mesmo a qual não pode ser medida por falta de conhecimento da mesma.

As horas passam, enquanto fugimos do que está em nós –lembro-me sempre que pode ser tão perturbador quanto o outro- para fixarmos nossa atenção aquele que não dá pra ser compreendido plenamente. Nessa parte, o que achamos que vemos de nós mesmos, eu, o que acho que vejo de mim, na verdade, é um reflexo, como num espelho, da mais superficial e sem solução perturbação, a inquietude da mente pra com aquele que não tem solução, para nós.

Logicamente, também vejo como tarefa quase impossível o total desapego do outro, que temos, por esbarrarmos com ele sempre. Nós amamos outro, porque o outro é o espelho e o reflexo das mesmas perturbações e aflições que citei. É muito mais fácil observar isso ‘nele’, é muito mais fácil pensar em alternativas eficazes para solucionar os problemas do outro, que as vezes é o nosso também.

Quando cheguei à conclusão que o outro é impossível para minha realização e plenitude, é que me vi em um naufrágio. Exatamente porque entrei em contato comigo mesmo, e muita coisa fica acumulada no casco do navio imerso na água quando emergimos nesse naufrágio. E quando emergimos nos damos conta que é tudo por nossa conta, tudo nossa responsabilidade. Inclusive o que o outro parece para nós.

Inclui, também, o que sentimos pelo outro. Porque o que sentimos pelo outro é carregado de expectativa e, quando se cria uma expectativa, é esperado que ela se cumpra. Nunca se cumprirá. Relaciono sentir com as expectativas por minha própria experiência de dar murro em ponta de faca. Não que seja assim, pelo contrário, acredito que devam ser duas coisas também opostas. O que sentimos tem que significar a liberdade com a qual desenvolvemos o sentimento e a mesma liberdade que iremos dar ao outro, porque ninguém quer ser preso a essas coisas da vida que já vimos causar tantos sofrimentos –e até morte(vide as histórias de amor mais românticas)-. Já a expectativa, eu acredito, jamais deve der depositada em alguém humano, sendo mais específico, como você. E é exatamente pela liberdade do sentimento, expectativa e sentimento, como amor, por exemplo, nesse caso, são opostos que se atraem e se repelem. Se atraem pelo puro exemplo, pela visão não turva do sentimento: quando olhar para o amor, com a tal liberdade, não vai ver a expectativa. E, quando olhar a expectativa, não verá nada de movimento, mas tudo o que for concreto, palpável e atingível por você mesmo. Expectativa é a esperança maldita em cima do outro, mas pode ser o empurrão pra planos que só você mesmo pode cumprir para o futuro.

Hoje, sinto que conhecerei melhor –disse melhor e não completamente- ao outro, se me conhecer em plenitude, ou chegar perto disso. Talvez eu seja mesmo o outro, também, como li. Já que conhecer e viver com o outro é tão difícil quanto viver consigo mesmo e, tentar, conhecer a si mesmo. Nesse ultimo caso, confesso que não estou certo que se é possível conhecer a si mesmo plenamente, por conta dos acasos e novidades da vida. Sempre existe algo novo o qual temos que lidar e conhecer. Impulsos meus que desconhecia frente a diversas situações. A nova pessoa que aparece na vida, em que, vamos tentar conhecer, na sua superficialidade, para lidarmos com ela na subjetividade, dentro de nós, para adentrar, em sentimentos e pensamentos, o outro.