Acabo de passar por mais uma manhã.
O sol nasce, as pessoas vão trabalhar, a luz adentra a janela.
Quisera eu que fosse outra manhã.
Existe nela movimento nas ruas e as luzes se desligando nos postes.
Passageiros esperando o ônibus e o neto sendo levado para a escola.
Uma mulher comprando cigarro e o menino comprando o doce.
E vai ficando mais quente conforme o sol sobe o céu para rasgá-lo em mais um dia.
A vida seria somente o enquadramento da janela caso não saísse daqui -penso.
E é. Acompanho do alto toda movimentação.
6 horas, bate o sinal da escola e os alunos entram.
Esvazia-se a rua frente a minha.
O vento toma conta tornando-se notável, batendo nas árvores e guiando os pombos.
Mais uma manhã.
Não percebo em minutos o negro do céu tornar-se laranja.
As cores não tem formas. E se misturam.
O céu não tem consistência e nunca pretende desabar.
As nuvens passam a me observar, a te observar. Elas passam e se desfazem.
Vão se transformando, juntando-se umas as outras. Sem rumo e nem direção.
Mais uma manhã.
Não percebo o dia chegar enquanto o calor adentra o quarto e a coberta.
Desperto no lamento em lágrimas do meu próprio corpo que não suporta tal calor.
Coisa alguma, dessa vez, tem consistência e realidade.
Fui tomado por uma enxaqueca que durou uma semana e ainda não findou.
De repente o dia é feio. É quente e desagradável.
O café não está pronto assim como eu.
Não sei como e quando me inicio.
As crianças indo ao colégio e as pessoas indo ao trabalho, que barulho infernal.
Minha audição é sensível como não havia percebido.
Tonto, urino já com a bexiga pedindo socorro. Mal consigo ficar de pé.
Mais uma manhã.
Vai-se a cabeça, fica a dor.
Minha cabeça foi cortada esta manhã.
Amolaram a faca durante alguns dias e finalmente hoje me decapitaram.
Mas fica a dor latente de um dia ter tido cabeça.
Procuro debaixo da cama, em cima da cabeceira. No escuro é fácil perder a própria cabeça -penso.
E acabo por deixar a manhã passar sem que eu possa perceber sua existência. E das outras pessoas.
Volto a dormir e existir nessa manhã não passa de um mero sonho.
A porta se fecha, dando princípio aos compromissos matinais. Que irão durar o resto do dia.
Estou pelo lado de dentro, faz frio e calor, ao mesmo tempo.
Meu pensamento, para meu desgosto, voa pra longe do aqui e agora.
Quando me dou conta, é manhã e então estou no aqui e agora.
Tenho uma revelação inusitada sobre nossa condição.
Toda manhã é uma epifania, todo pensamento matinal é uma divina constatação.
E selado o período pelo relógio ao meio dia, o dia se torna uma irrealização, por ser mero e efêmero vão.
Espero pela manhã seguinte, que parece eterna no raiar do sol.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
terça-feira, 9 de abril de 2013
inalcançável
- "Como é por dentro outra pessoa?
- Fernando Pessoa, 1934
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo."
Quando assim me encontro, nessa ponta do fio, viajo e me
mudo de cidade, ainda me deparo com essa mesma distancia. É confuso, pois o que
tinha em mente -e que, agora, mudou
completamente- é que o outro era a tarefa da minha vida, a meta que iria
alcançar, as cabeças e as mentes tão confusas quanto a minha e a de qualquer
outra pessoa, que iria entender. Não iria, nem nunca vou. É nesse ponto em que,
quando vamos nesse encontro impossível que nos afastamos de nós mesmos, creio
eu. Quando ponho eu e o outro em jogada, desfaço esse oposto, porque, antes de
qualquer coisa, não alcançarei o entendimento da mente do outro e, ainda tento
encontrar solução para a minha. Então não existe oposição, senão uma mera
distancia mesmo a qual não pode ser medida por falta de conhecimento da mesma.
As horas passam, enquanto fugimos do que está em nós
–lembro-me sempre que pode ser tão perturbador quanto o outro- para fixarmos
nossa atenção aquele que não dá pra ser compreendido plenamente. Nessa parte, o
que achamos que vemos de nós mesmos, eu, o que acho que vejo de mim, na
verdade, é um reflexo, como num espelho, da mais superficial e sem solução
perturbação, a inquietude da mente pra com aquele que não tem solução, para
nós.
Logicamente, também vejo como tarefa quase impossível o
total desapego do outro, que temos, por esbarrarmos com ele sempre. Nós amamos
outro, porque o outro é o espelho e o reflexo das mesmas perturbações e
aflições que citei. É muito mais fácil observar isso ‘nele’, é muito mais fácil
pensar em alternativas eficazes para solucionar os problemas do outro, que as
vezes é o nosso também.
Quando cheguei à conclusão que o outro é impossível para
minha realização e plenitude, é que me vi em um naufrágio. Exatamente porque
entrei em contato comigo mesmo, e muita coisa fica acumulada no casco do navio
imerso na água quando emergimos nesse naufrágio. E quando emergimos nos damos
conta que é tudo por nossa conta, tudo nossa responsabilidade. Inclusive o que
o outro parece para nós.
Inclui, também, o que sentimos pelo outro. Porque o que
sentimos pelo outro é carregado de expectativa e, quando se cria uma
expectativa, é esperado que ela se cumpra. Nunca se cumprirá. Relaciono sentir
com as expectativas por minha própria experiência de dar murro em ponta de
faca. Não que seja assim, pelo contrário, acredito que devam ser duas coisas
também opostas. O que sentimos tem que significar a liberdade com a qual
desenvolvemos o sentimento e a mesma liberdade que iremos dar ao outro, porque
ninguém quer ser preso a essas coisas da vida que já vimos causar tantos
sofrimentos –e até morte(vide as histórias de amor mais românticas)-. Já a
expectativa, eu acredito, jamais deve der depositada em alguém humano, sendo
mais específico, como você. E é exatamente pela liberdade do sentimento,
expectativa e sentimento, como amor, por exemplo, nesse caso, são opostos que
se atraem e se repelem. Se atraem pelo puro exemplo, pela visão não turva do
sentimento: quando olhar para o amor, com a tal liberdade, não vai ver a
expectativa. E, quando olhar a expectativa, não verá nada de movimento, mas
tudo o que for concreto, palpável e atingível por você mesmo. Expectativa é a
esperança maldita em cima do outro, mas pode ser o empurrão pra planos que só
você mesmo pode cumprir para o futuro.
Hoje, sinto que conhecerei melhor –disse melhor e não
completamente- ao outro, se me conhecer em plenitude, ou chegar perto disso.
Talvez eu seja mesmo o outro, também, como li. Já que conhecer e viver com o
outro é tão difícil quanto viver consigo mesmo e, tentar, conhecer a si mesmo. Nesse
ultimo caso, confesso que não estou certo que se é possível conhecer a si mesmo
plenamente, por conta dos acasos e novidades da vida. Sempre existe algo novo o
qual temos que lidar e conhecer. Impulsos meus que desconhecia frente a
diversas situações. A nova pessoa que aparece na vida, em que, vamos tentar
conhecer, na sua superficialidade, para lidarmos com ela na subjetividade,
dentro de nós, para adentrar, em sentimentos e pensamentos, o outro.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Assovio para o vão na imensidão
No horizonte cortando a nuvem e o chão
Impossível determinar o chão
Recortado de formigas saúvas
Cheias das permissões na natureza
Subo o mais alto para tocas as nuvens
Mas só dos olhos sinto a cor das mais carregadas
As árvores desenham a paisagem
Nos galhos, as aves expressam sua linguagem
Não posso falar a língua das aves,
Nem das árvores
Uivando com o cortante vento
Assemelhando meu assovio ao relento
Não se pode tocar a natureza
Não se pode medir o tamanho dessa beleza
Sinto a textura da folha
E a delicadeza da pele
Parte desse todo sou eu
Móvel, levado pelo tempo
Enquanto das pernas tomo minha partida
Das raízes as plantas ficam sem partida
As naturalidades do ser
Planta
Bicho
Gente
Sobre o orvalho, caminho
Pé, raiz, galho, flor
Molhados no silencioso sereno
sábado, 23 de março de 2013
dentro
Na divindade individual
Na paz espiritual
No espírito que habita em mim
Da alma que jaz sem fim
Enclausurada dentro deste corpo
Decrepitando a próprio gosto
Fluindo no infinito tempo
Na correnteza deste infinito
Finito Eu sou
Buscando no meu interior
Pacificidade pra me encontrar
Beleza admirar
Amar a vida no Todo meu
Pra sentir-se abraçado de fluidos bons
Bombeia sangue, pulsa veia forte
De emoção
O imaginário poder do coração
Na paz espiritual
No espírito que habita em mim
Da alma que jaz sem fim
Enclausurada dentro deste corpo
Decrepitando a próprio gosto
Fluindo no infinito tempo
Na correnteza deste infinito
Finito Eu sou
Buscando no meu interior
Pacificidade pra me encontrar
Beleza admirar
Amar a vida no Todo meu
Pra sentir-se abraçado de fluidos bons
Bombeia sangue, pulsa veia forte
De emoção
O imaginário poder do coração
quinta-feira, 7 de março de 2013
cada aperto
na correria, escorrego
e assim,
indo para um lugar sem fim
sempre me encontro perdido
no vácuo
do profundo que procuro
dentro,
no meu próprio escuro
ainda tento me encontrar
incessantemente, sinto não poder parar
a trajetória, neste caso
não é para morte
mas sim, claro, para o que está vivo
no Eu, no todo
pois morrer é sentença
o resto, inconstante
sem mesmo poder dizer se vai acabar, agora
sem mesmo também, a nada mais, sentenciar
pois pulsa até morrer
e a vida está na veia
percorrendo ao longo da prisão de carne e osso
sufocando até o pescoço
deixando sangue jorrar
na correria, escorrego
e assim,
indo para um lugar sem fim
sempre me encontro perdido
no vácuo
do profundo que procuro
dentro,
no meu próprio escuro
ainda tento me encontrar
incessantemente, sinto não poder parar
a trajetória, neste caso
não é para morte
mas sim, claro, para o que está vivo
no Eu, no todo
pois morrer é sentença
o resto, inconstante
sem mesmo poder dizer se vai acabar, agora
sem mesmo também, a nada mais, sentenciar
pois pulsa até morrer
e a vida está na veia
percorrendo ao longo da prisão de carne e osso
sufocando até o pescoço
deixando sangue jorrar
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
"preciso aprender a só ser"
Manhã de qualquer dia. Levanto-me da cama e me espanto. -
Aonde eu estou? Quem é esse refletido no espelho? De quem são essas coisas? Pra
onde eu devo ir agora? - Questionei tudo o que mudara. - O que aconteceu ao meu
quarto? E quanto ao meu rosto?
Sentir, a flor da pele, dos pés da cabeça, que eu existo, que faço parte do todo mas também que sou um só, estando sozinho, dentro do meu corpo, existindo pela minha própria existência, pela minha própria alma. Nisso, me confundo, mais uma vez, em saber como me sinto, se estou bem ou mal. Não dá pra definir, a carga energética oscila e dessa forma, sim, eu sinto, mas também oscila sem que possa/consiga dizer exatamente do que se trata esse oscilamento. Tenho a sensação(sinto que falarei muito e quase que somente de sensações), também, de sonho acordado, como se fosse fumaça a realidade, parecendo estar, assim, em um sonho. Minha visão não está turva, ela está clara, pois só digo o que digo me baseando no que vejo e sinto a partir disso. Aí está outra, o que vejo e o que sinto, o que me causa a visão, é tão difícil dizer... pois é tão pessoal, é de uma intimidade e individualidade intransferível, chega ser apavorante, por saber que este sentimento é único, difícil de se expressar e só o vive quem vive também da experiência. Só o vive quem desperta. Esse termo, despertar, vem de um livro que retrata um pouco o que eu estou incansavelmente tentando buscar para escrever há dias e, já que quero me expôr e expôr todo meu sentimento e tudo o que penso sobre isso, devo falar desse livro também, que me causou confusão, mas hoje eu crio sentido pra ele, na busca de sensações parecidas vivenciadas por outras pessoas. Livro Demian, de Hermann Hesse, não posso esquecê-lo, mesmo tendo o lido como uma lição de 'moral' e hoje não ter muito haver com isso. Dizendo assim, citando este livro em especial, parece que esse despertar se inclina para o espiritual(o que não descarto, já que vivo dessas possibilidades de sensações e de sinais que vem da vida e do meu interior), mas também sinto na pele, até no peso do meu corpo, nas minhas feições. Sim, existe o mistério do Eu e, de alguma forma, sinto-me rasgar o desejo de ir de encontro a ele, pois não consigo mais imaginar minha vida no futuro sem tal conhecimento e também não consigo conceber que isto seja apenas uma coisa minha, mas que a todos acontecerá e, pelo mistério da vida, o tempo é, como sempre foi, indeterminável.
Algo mudou na forma como eu vejo a vida, disso não tenho
mais dúvidas. Mas ainda é confuso, sinto do que se trata, tentando aprender a
lidar, indo, por fim, na aceitação, em direção a essa nova perspectiva. Me sinto condenado a esta verdade. Minha confusão, na verdade, é porque
não sei, de fato, quando isso se iniciou. Vi e senti indícios desse meu novo
agora, mas nunca me prendi tanto a tantos sinais.
Sentir, a flor da pele, dos pés da cabeça, que eu existo, que faço parte do todo mas também que sou um só, estando sozinho, dentro do meu corpo, existindo pela minha própria existência, pela minha própria alma. Nisso, me confundo, mais uma vez, em saber como me sinto, se estou bem ou mal. Não dá pra definir, a carga energética oscila e dessa forma, sim, eu sinto, mas também oscila sem que possa/consiga dizer exatamente do que se trata esse oscilamento. Tenho a sensação(sinto que falarei muito e quase que somente de sensações), também, de sonho acordado, como se fosse fumaça a realidade, parecendo estar, assim, em um sonho. Minha visão não está turva, ela está clara, pois só digo o que digo me baseando no que vejo e sinto a partir disso. Aí está outra, o que vejo e o que sinto, o que me causa a visão, é tão difícil dizer... pois é tão pessoal, é de uma intimidade e individualidade intransferível, chega ser apavorante, por saber que este sentimento é único, difícil de se expressar e só o vive quem vive também da experiência. Só o vive quem desperta. Esse termo, despertar, vem de um livro que retrata um pouco o que eu estou incansavelmente tentando buscar para escrever há dias e, já que quero me expôr e expôr todo meu sentimento e tudo o que penso sobre isso, devo falar desse livro também, que me causou confusão, mas hoje eu crio sentido pra ele, na busca de sensações parecidas vivenciadas por outras pessoas. Livro Demian, de Hermann Hesse, não posso esquecê-lo, mesmo tendo o lido como uma lição de 'moral' e hoje não ter muito haver com isso. Dizendo assim, citando este livro em especial, parece que esse despertar se inclina para o espiritual(o que não descarto, já que vivo dessas possibilidades de sensações e de sinais que vem da vida e do meu interior), mas também sinto na pele, até no peso do meu corpo, nas minhas feições. Sim, existe o mistério do Eu e, de alguma forma, sinto-me rasgar o desejo de ir de encontro a ele, pois não consigo mais imaginar minha vida no futuro sem tal conhecimento e também não consigo conceber que isto seja apenas uma coisa minha, mas que a todos acontecerá e, pelo mistério da vida, o tempo é, como sempre foi, indeterminável.
Sei também que esse é um novo caminho, mas agora eu estou
indo em direção ao meu próprio interior. Tentando passar pelo pavor e pelos
estágios de euforia, inclinando minha vontade pro bem, o bem que também sinto,
entre tantas coisas que são sentidas, nessa caminhada. Essa é uma cortina de
fumaça com várias formas abstratas. Sinto que essa é a redenção da vida que
levei até agora. Aqui começa, mas não se encerra. Imaginando-me fora do meu
corpo, vendo o outro eu semelhante, mas totalmente desconhecido. Minha figura
que jamais havia despertado e agora quer se fazer presente, por isso tudo está
tão diferente.
É pela manhã que percebo, todos os dias, que estou sozinho. Conforme
o dia se passa, junto das horas, esse sentimento e verdade vão sendo encobertos
pelo barulho e pelas pessoas que, como se eu estivesse colocado uma música em modo
rápido, vão passando. Os sonhos da noite se assemelham com os mesmos
personagens do dia-a-dia. E mesmo assim, pra que tenha lugar deste sentimento
encoberto, as sensações começam a aparecer, às vezes quando olho para o céu,
pela manhã, às vezes somente pelos sinais que nos dias vão surgindo. Às vezes,
também, são sensações que duram dias, semanas. Como explicar isso? É vida,
oras. É assim que ela sempre foi, mas por dispersão, pelos outros olhos que
usara um dia como uma porta de entrada, deixei ocupar-me de fora e dos de fora.
Mas os olhos não são portas de entrada pra alma, a porta secreta velada pelo
meu corpo tá dentro. E aí não se fala mais em localização, pois enquanto digo
isso perco todas as diretrizes. Tudo o que eu digo quanto a sensações pode ser
facilmente confundido por sintomas de acontecimentos rotineiros, como pela
noite, enquanto me deito, sou ocupado pelo meu próprio espírito e o sinto,
querendo, sem possibilidades de resgate, sair do enclausuro que firmou com meu
corpo, na vontade de sair da pele, fugir daquela prisão, que carrego para todos
os lados e para sempre até a morte, uma ultra sensibilidade é sentida também na
pele. Podem ser indícios de um espírito afugentado, agora, querendo fugir.
Os sonhos também vão ficando cada vez mais próximos. No
enredo, nada real. Quanto aos personagens, meu espanto, fico estarrecido de
despertar e sentir que vi muito de alguém que nunca vi. Eles se tornam mais
reais pelas sensações na manhã. Claro, junto à solidão fatídica. Eu nunca me
senti tão só. Talvez por isso esteja usando isso como um diário. Um resumo do
que vi, a partir do que sinto nesse momento. É uma pena mesmo não poder ter
descrito tudo o que senti enquanto isso pulsava fortemente dentro mim. Mas
mesmo dessa forma, falando da memória de algumas sensações, agora me habitam
outras. Incomparáveis, sempre incomparáveis.
Não se trata de ser alguém. Trata-se de ser eu mesmo. Já se
deram conta de si mesmos? É mais ou menos isso. Em tanto tempo, caiu a ficha
que eu nasci, que estou vivendo e que vou morrer. Mais do que isso, caiu a
ficha que só dou conta do agora. Somente o agora está em minhas mãos. Voltando
ao meu ser, sinto como se tivesse olhado no espelho do meu interior e visto o
mais secreto de mim, o Eu Superior, talvez. Agora é impossível escapar de
qualquer possibilidade, exatamente por serem possíveis. Mesmo se tratando do
meu eu interior, os sinais são vistos com meus próprios olhos, que estão na
cara, claro. Porém, só digo que vejo porque sinto o que vejo, senão seria
somente mais uma banalidade que passou sem eu perceber. E acho que é mesmo
assim, falamos do que sentimos, a partir do vemos, mas sempre do que
sentimentos e pensamos.
Eu acho que morri, uns dias atrás e, também nas sensações,
renasci pra esse mistério que a vida se mostra todos os dias. Um mistério ora
fascinante, ora sufocante, pelo medo que existe em nós e que, quando indo de
encontro com o que há nas suas profundezas, você o vê lá, que sempre esteve lá,
por sinal. Espiral de fumaça é o que se tornou meus velhos dias, e se tornam
todos os dias quando desperto de um sono profundo. Ainda com tudo isso que
sinto, é difícil não deixar a dispersão tomar conta às vezes, e o interessante
é que antes tudo era isso, agora, de alguma forma, por impulso, quero fugir.
Sem desespero, já que esse só me deixa desnorteado e de mãos atadas. O que eu
digo não terá fim, já que estou nesse caminho que não tem ponto de partida nem
linha de chegada, por não ser uma corrida, acho que por não ser nada que se dê
nome e que seja tão consistente e palpável pra se encerrar.
Gil, iluminado,
escreveu, cantou e tocou uma canção(e um disco) a qual me aflora esses sentimentos:
“Sabe, gente.
É tanta coisa pra gente saber.
O que cantar, como andar, onde ir.
O que dizer, o que calar, a quem querer.
É tanta coisa pra gente saber.
O que cantar, como andar, onde ir.
O que dizer, o que calar, a quem querer.
Sabe, gente.
É tanta coisa que eu fico sem jeito.
Sou eu sozinho e esse nó no peito.
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder.
É tanta coisa que eu fico sem jeito.
Sou eu sozinho e esse nó no peito.
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder.
Sabe, gente.
Eu sei que no fundo o problema é só da gente.
E só do coração dizer não, quando a mente.
Tenta nos levar pra casa do sofrer.
Eu sei que no fundo o problema é só da gente.
E só do coração dizer não, quando a mente.
Tenta nos levar pra casa do sofrer.
E quando escutar um
samba-canção.
Assim como: "Eu preciso aprender a ser só".
Reagir e ouvir o coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser."
Assim como: "Eu preciso aprender a ser só".
Reagir e ouvir o coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser."
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