quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sabido

Tinha um olhar sem defeito,
Não era nem perfeito, nem mal feito,
Nem no meio-termo podia se encaixar.
Era uma caixinha de surpresa.
Despertava sorrisos, mas pagava muito mico.
Sentia-se melhor no crepúsculo.
Sentia-se mal na madrugada.
Todos o achavam em cima do muro.
Nem muro tinha.
Que ignorância, o menino não era indeciso.
Era confuso,
Mas ligeiramente se resolvia.
Ele aprendeu tudo,
Não absorveu nada.
Era automático para falar sobre assuntos interessantes.
Era uma máquina muito humana, mas sabida.
Morreu cedo, coitado.
Ataque de asma. Estava indefeso e sem sua droga para curá-lo.
Trágico.
Era sabido, mas naquela tarde esqueceu-se do seu óleo, sua peça principal que fazia tudo volta a funcionar.
Antes de morrer teve uma tarde enfadonha. Já previa, já sabia. Era sabido o menino.
Mas morreu.
Uma pena.

Palavras

"Eu não escrevo pra ninguém e nem pra fazer música
E nem pra preencher o branco dessa página linda
Eu me entendo escrevendo
E vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco
Ele me mostra o que eu não sei
E me faz ver o que não tem palavras
Por mais que eu tente, são só palavras
Por mais que eu me mate, são só palavras
Eu me entendo escrevendo
E vejo tudo sem vaidade
Só tem eu e esse branco
Ele me mostra o que eu não sei
E me faz ver o que não tem palavras
Por mais que eu tente são só palavras
Por mais que eu me mate são só palavras"

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Nem batom. Nem alma. Nem nada.

Eram 3h30 da madrugada. Ela estava entediada.
Trocou de roupa três vezes. Estava insatisfeita.

Curiosamente não eram só as roupas que não as estavam satisfazendo. Ela se perguntava mil vezes ao dia: “quem está habitando esse corpo? Eu? Meu reflexo? Minha vaidade?”. De nada valia se perguntar tantas vezes se a resposta que vinha era dela mesmo dizendo “não estou satisfeita”.

Nunca esteve. Quando era mais jovem nada a agradava. Nem os livros de histórias sobre princesas perfeitas eram o suficiente. Cada página ela perguntava, vagamente, para o próprio livro “quem são essas de tão boa alma? Ninguém pode ser tão bom assim”. Era uma aberração.

Passou um batom vermelho, depois de decidir a roupa. Olhando pro espelho ela disse pra ninguém “vou sair”. A resposta? Um remendo ecoado e uma imagem distorcida.

Vestida e pronta para “divertir-se”, ela saiu de casa mentalizando uma boa noite. Pegou um taxi, iria para melhor danceteria daquela cidade, com as melhores pessoas, em busca de companhia pra noite e sabendo que só o café forte da noite passada restaria pela manhã. Era tão romântica que silenciosamente dizia a todos os seus companheiros de noitada: “você irá me amar pela manhã?”. Nunca foi amada. Desacreditou-se.

Ordenou que o motorista parasse:
- Pare que eu vou descer aqui.
Assustado, pois eram 4 horas da manhã de um sábado chuvoso, o motorista retrucou:
- Mas senhora... – e foi interrompido.
- Só pare e vá embora, eu me viro daqui.

Desceu no meio de um viaduto vazio. “Só deve ter alma penada aqui”, pensou.
Chegou à beirada da barra de ferro enferrujada, abaixou seus olhos e numa atitude impulsiva, num grito silencioso de misericórdia, inclinou seu corpo e jogou-se. Morreu 10 minutos depois da queda. A dor foi efêmera. A vida foi efêmera. O batom vermelho se desmanchou. Nada restou, nem a própria alma. Viraria pó após alguns anos a sete palmos do chão. Ela era feliz, insatisfeita, triste e sabia que nada era capaz de mudar a forma que pensava. Nada era bom, nada era o suficiente. Não terminava nada. Nem aquela noite que prometeu a si que iria se divertir.  Nenhuma promessa quebrava seus atos incompletos.

Ela era incompleta. No fundo, queria morrer desde o primeiro minuto de vida.
A notícia não abalou a ninguém. Ela era invisível a olhos vaidosos e covardes. Ela já estava morta nos olhos alegres dos colegas de trabalho, de noitada e do seu meio de convívio. Ou melhor, seu meio morto-vivo.

Quando encontraram seu corpo no pé daquele viaduto, parecia uma bigorna obedecendo à lei da gravidade, pronta pra cair. Caiu. Nunca deixou de viver por nunca estar viva.

Ela acreditava que o sentido de vivenciar os fatos era devido ao sentimento imposto a cada momento. Ela nunca sentiu nada mais que tristeza, nada mais que desprezo. Por ela mesma.

Pobre menina tola, não morreu sua alma, nem suas idéias... morreu seu próprio corpo, que poucas histórias tinham pra contar. Ela degustou cada café com amargo de nicotina, cada perfume com ar de creolina. Pobre menina tola.

Você pode...

Você pode querer mudar a cor do céu, mas ele sempre será azul (ou negro).
Pode pegar tintas e pintar uma parede muito velha, mas atrás daquele verde limão ainda irá existir uma parede velha.
Pode maquiar-se pra esconder imperfeições da idade, mas naquele determinado momento você ainda vai ter a mesma idade, com os mesmos traços de imperfeição.
Pode ansiar por suicídio por vergonha de alguns atos, ou por um coração partido, mas os atos já foram perpetuados na memória da linha do tempo, e o seu coração irá parar de bater, sem remendos pra concertar.
Pode profanar a palavra “amor” aos sete ventos, mas ela vai ser vaga se nada tiver dentro de você.
Emoldurar uma vida, pendurar e achar que ela ficará boa aos olhos do expectador, não vão esconder os borrões e defeitos que lá estava, e sempre estará.

Em branco. A cores.

Pegue meu tempo.
Faça dele algo melhor que horas vagas.
É assim que eu ouço. É assim que dizem que eu deveria fazer.
Mas você age com tanta maestria sobre os acontecimentos que eu acredito que seja melhor para resolver isso.
É só mais uma coisa em branco, e vemos tudo negro.
Essa é a forma que minha mente trabalha. Respirando ares confusos e tentando desfazer um nó cego que eu criei.
“Existem tantas formas de encarar problemas”, essa é só mais uma mentira que eu conto pro meu coração. Mas minha mente sabe qual é a minha reação diante de fatos vergonhosos.
Quero me esconder.
Quero te esconder.
E mais uma vez será em vão. Não posso me encontrar, quiçá encontrar a você.
Não adianta achar que uma união fará isso acontecer. Não somos siameses, tais fatos encaramos sozinhos. Temos dois olhos e é apenas com eles que podemos enxergar.
As demais coisas são ilusões de óptica, inventadas pra dar a idéia de novos pontos de vista.
“Você não merece um ponto de vista, se a única coisa que você vê é você” PG - Paramore.

Silêncio: gostar ou não gostar?

De repente era só eu lá
Sentado, não esperava ninguém falar
Eu não sei o do que se faz o silêncio
Porém, podem ser mágoas, aflições ou tristeza, apenas
E mesmo assim insiste em machucar
Ferida calada, parecida com o silêncio que se fez
Dessa vez não é pra reclamar
Talvez seja só mais uma incerteza
Não sei se vou aguarda até que um som rompa esse silêncio inexplicável
Eu gosto de silenciar, mas não gosto de calar, só se cala quem cansou de falar, de ouvir ou de tentar procurar respostas corretas pra ressaltar
A um assunto ao qual nem queria escutar
Afinal, nada é pra já, por isso fico na incerteza do esperar
Há de haver outras horas, só quero me expor pra que entenda:
Eu também gosto de silenciar, também sou feito de mente fresca sempre querendo pensar
Mente de rios pra se mergulhar
Clichê também é algo pra se usar
Mas não basta só usar essas palavras
Ninguém as lerá, ninguém as entenderá e eu não quero me explicar
Estou como um ‘dois de paus’ aqui
Vendo e relendo tentando saber como organizar
Essas idéias avulsas, que não param nunca de voltar
Ah, mas são muito mais que idéias
São leves sopros no peito
Borbulhas no estômago e uma energia não decifrada por mim ainda, passando na garganta indo até a cabeça, dando uma embriaguês pro pensar
Não sei se é bom ou ruim, não quero saber. Aliás, quem saberá?
Pouco me importo, a ansiedade é maior por alívio que a vontade de dar nome as sensações efêmeras
Porque eu sei que vai passar
Tudo passa
Mas eu passo devagarzinho
Já dizia Mário Quintana
“todos estes que aí estão atravancando meu caminho: eles passarão, eu passarinho”
Eu passo assim, passos levinhos, quase querendo levitar
Acho que vai ficar no silêncio
Uma hora vai passar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Natividade

Sou nativo de nenhuma nação.
Entrego-me fácil a solidão.
Faço rima fácil sem perceber e sem pensar, quando vi, já estava lá.
Não posso negar que é divertido rimar.
Não sou ditador do que digo,
Mudo ou então repito.
Mas dessa vez eu vou me calar
Bastam os tormentos, basta à farta falta de informação
Ninguém é dono de suas próprias idéias
Então, também não sou dono das palavras
Estas eu pego emprestado do dicionário
Só temos tais idéias em nossas mãos quando as botamos em concordância
O resto, o destino ou seja lá no que você acreditar, tratará hora ou outra de te tirar.