quinta-feira, 21 de junho de 2012

high life

Parimos a morte ao longo dos anos
Se aproximando, dizendo ‘olá’ com seu alto-relevo de rugas
Enfraquecendo a memória sadia para que caiba sempre mais
Esquecendo para lembrar
Um dia morreremos todos
Se deus está lá onde quer que seja o lugar,
Agradeço pela graça de poder morrer um dia
Ninguém tem alma imortal que suporte a eternidade em sua total materialidade
Ninguém vencerá seus renovados fantasmas pra sempre
Eles voltam...
Ainda bem,
A morte também.
Em nosso ponto de vista,
Ela está sobre todas as coisas
E todas as coisas sujeitas a ela
Elevando a vida

sexta-feira, 8 de junho de 2012

beleza

Ah, se eu tivesse bela pele
Belo corpo
Belas formas
Belas palavras
Bela idade
Boa cabeça
E assim tivesse certeza que me vissem atentamente a andar,
Desistiria de toda beleza pela paz do meu olhar.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

o roteiro original

A vida foi contada. Como num script cinematográfico. Divida pelo som da claquete, ensaiada nos melhores moldes. Abdicamos ao dom de sermos a arte em sua maior forma. Um monólogo seria correto. Essa incansável viagem solitária pelos palcos da vida. Apresentando-se, sentindo empatia e simpatia, glória e derrota. Nem toda cena gera aplausos. De todos os seus formatos, reformatados ou não, a Terra se tornou o palco mais fiel, porque se cairmos não passaremos do chão e dessa forma, todo bom ator aprende a recriar o espetáculo. E eu escolhi ser só o roteirista.

sábado, 26 de maio de 2012

2.1

"Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumor das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Só sei o nada aumentado.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto.
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre o meu rosto vem dormir a noite."
De Manoel Barros em "O Livro das Ignorãças".
Minha leitura pré-adolescente fazendo muito mais sentido em minha fase -quase- adulta.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Fui ver a cor de outro lugar. Fui experimentar do ar de uma nova cidade, de outra idade. Eu vi um pássaro ser livre. Vi um outro morrer. Senti o tal aroma da dama da noite (que deixa rastro por uma quadra inteira). Vi a "melhor idade" tomando espaço em praça pública com música. Vi violinista tocar Mozart em troca de pessoas que só pudessem ouvir. Entrelacei linhas pra um crochê e desfiz pontos pacientemente. Paciência essa, aliás, que adquiri depois de muito tempo. Eu vi a cor do dinheiro, senti sua textura, verbalizei a sua utilidade, engrandeci, por isso, o despojado. E por ser minimalista, recuei. Devolvi a dignidade tida como cédula, e antes disso, lutei pela satisfação em Reais. Eu senti a fúria de um frustrado. Devolvi como justo. Conheci gente o suficiente para afirmar em mim o sentimento de que não se deve subestimar as pessoas, principalmente pelo o que fala, veste e demonstra nos olhos. Contei o que tinha pra contar, contudo, o retorno foi dobrar essas histórias. Formulei, em ordem, todas as necessidades, todas as contas, todas as importâncias. E olha, saiu tudo como nunca fora planejado, que surpresa. Falando em surpresas, me surpreendi com a falta de educação e com um coração muito bom que apareceu. Podendo rever todos os lugares, podendo encontrar todos esses corações, podendo sentir de tudo um pouco, agraciado pela atenção que tive, por todas as coisas que pude, eu vi essa ilusão de papel em branco em cristal líquido e escrevi.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

veja bem

Encontrei as duas faces da mesma personalidade.
As duas extremidades.
Fases extraídas das feições. Adquiridas no leito da descoberta.
Nascida do pacífico, naturalizada na confusão.
Torno a ver as duas faces em descrição.
No âmbito da vida; descoberta novamente e criação.
Razão, impulso, resignação.
Trépido, fugindo da multidão.
Alucinado, pedindo redenção.
Descaradas, duas faces em contramão.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

miragem

Resgatei o ente querido, ferido.
Fiz uma aposta,
Desfiz.
Até me convencer
Que tempo é mar,
De ondas gigantescas
E peixes mortos e belos.
Fomos arrastados até o fim da vida,
Puxados por redemoinhos da miragem.
Nesse delírio da vida,
De tantos achados e perdidos,
E visões que podem ser dislexia.

Finda onda a qualquer lugar,
Deixe-se ser somente mar.
Calmo, frio e de vida apenas marinha.
E de águas que terminam à beira-mar.