segunda-feira, 4 de junho de 2012

o roteiro original

A vida foi contada. Como num script cinematográfico. Divida pelo som da claquete, ensaiada nos melhores moldes. Abdicamos ao dom de sermos a arte em sua maior forma. Um monólogo seria correto. Essa incansável viagem solitária pelos palcos da vida. Apresentando-se, sentindo empatia e simpatia, glória e derrota. Nem toda cena gera aplausos. De todos os seus formatos, reformatados ou não, a Terra se tornou o palco mais fiel, porque se cairmos não passaremos do chão e dessa forma, todo bom ator aprende a recriar o espetáculo. E eu escolhi ser só o roteirista.

sábado, 26 de maio de 2012

2.1

"Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumor das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.
Só sei o nada aumentado.
Eu sou culpado de mim.
Vou nunca mais ter nascido em agosto.
No chão de minha voz tem um outono.
Sobre o meu rosto vem dormir a noite."
De Manoel Barros em "O Livro das Ignorãças".
Minha leitura pré-adolescente fazendo muito mais sentido em minha fase -quase- adulta.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Fui ver a cor de outro lugar. Fui experimentar do ar de uma nova cidade, de outra idade. Eu vi um pássaro ser livre. Vi um outro morrer. Senti o tal aroma da dama da noite (que deixa rastro por uma quadra inteira). Vi a "melhor idade" tomando espaço em praça pública com música. Vi violinista tocar Mozart em troca de pessoas que só pudessem ouvir. Entrelacei linhas pra um crochê e desfiz pontos pacientemente. Paciência essa, aliás, que adquiri depois de muito tempo. Eu vi a cor do dinheiro, senti sua textura, verbalizei a sua utilidade, engrandeci, por isso, o despojado. E por ser minimalista, recuei. Devolvi a dignidade tida como cédula, e antes disso, lutei pela satisfação em Reais. Eu senti a fúria de um frustrado. Devolvi como justo. Conheci gente o suficiente para afirmar em mim o sentimento de que não se deve subestimar as pessoas, principalmente pelo o que fala, veste e demonstra nos olhos. Contei o que tinha pra contar, contudo, o retorno foi dobrar essas histórias. Formulei, em ordem, todas as necessidades, todas as contas, todas as importâncias. E olha, saiu tudo como nunca fora planejado, que surpresa. Falando em surpresas, me surpreendi com a falta de educação e com um coração muito bom que apareceu. Podendo rever todos os lugares, podendo encontrar todos esses corações, podendo sentir de tudo um pouco, agraciado pela atenção que tive, por todas as coisas que pude, eu vi essa ilusão de papel em branco em cristal líquido e escrevi.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

veja bem

Encontrei as duas faces da mesma personalidade.
As duas extremidades.
Fases extraídas das feições. Adquiridas no leito da descoberta.
Nascida do pacífico, naturalizada na confusão.
Torno a ver as duas faces em descrição.
No âmbito da vida; descoberta novamente e criação.
Razão, impulso, resignação.
Trépido, fugindo da multidão.
Alucinado, pedindo redenção.
Descaradas, duas faces em contramão.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

miragem

Resgatei o ente querido, ferido.
Fiz uma aposta,
Desfiz.
Até me convencer
Que tempo é mar,
De ondas gigantescas
E peixes mortos e belos.
Fomos arrastados até o fim da vida,
Puxados por redemoinhos da miragem.
Nesse delírio da vida,
De tantos achados e perdidos,
E visões que podem ser dislexia.

Finda onda a qualquer lugar,
Deixe-se ser somente mar.
Calmo, frio e de vida apenas marinha.
E de águas que terminam à beira-mar.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Imagina quantos lugares existem dentro do "aqui"

Estou pontuando e desatando alguns nós que a vida deu. Ultimamente, o que me tem sido válido não é de valia alguma pra qualquer participante desse reality show. É como se tudo o que aqui pertencesse, tivesse de passagem como eu, mas pra outro lugar, diferente do meu. Eu não consigo pegar uma agulha pra levar comigo, até o crochê teve que perder a vez. A roupa, o sapato, o pai e a mãe, de ninguém pertencem, nem a mim, comprei tão suado aquela roupa cara. E aí? Qual é a validade? Deixo de pagar caro com dinheiro pra pagar caro com a cara. Porque se não tenho o que o dinheiro me comprou, o que não pode comprar muito menos será meu.

Mas já deixei de querer muito pra mim. Acho que muito e pouco se equivalem quando o assunto é quantos estão no bolso e quantos estão ao lado.

Metaforicamente falando, não te trará satisfação ir pro céu se você gosta do inferno.

Aqueles senhores da praça que tanto me encantaram não são meus, nem daqui de onde eu piso. Eles são de onde quiserem ser, e escolheram ser da praça e da música. E olha, nem na praça eles estão mais. 

A validade das coisas se relaciona diretamente com o tédio empregado aquele lugar ou aquela situação. Os senhores se entediaram enquanto eu pedia bis, e foram embora. Assim que está me parecendo a vida.

 

Nem vou esperar muito tempo até ficar claro, porque “e se”? E se os senhores ficassem na praça? Talvez o entediado seria eu. E não teria peito pra dizer que aquilo já não mais me satisfaz como antes me encantava.

Então é por isso que tudo que resolveu chegar ao fim e partir por conta própria, eu deixo que vá. Não me cabe pontuar, não enquanto estiver preparado pra que aquilo novamente aconteça.

Das vontades eu sei quase todas que eu quis experimentar. Mas eu ouvi o certo de que ‘vontade dá e passa’.

Não sei se vai passar. Mas se não passar, eu arranjo outras só pra me assegurar.

Por fim, acho nem de estratégia, nem de estrada a vida é feita... porque até agora ninguém, de fato, viu o fim e cumpriu sua meta como prometido. Nem vi pecados a pagar. Injustiça divina ou justiça dos homens?

sábado, 7 de abril de 2012

praça

Queria poder dizer olá
Para o casal de senhor que canta com prazer no olhar
Canções que me fazem adorar
A vida dura e amarga
Que cada passo prova o espaço
Dessa tal beleza de cantar
E da tristeza do corre de lá pra cá.